Nota:
a) Era comum no antigo Distrito L-20 (Sul de Minas Gerais), na época em que escrevemos este artigo (1971), que os governadores se aproveitassem da proximidade entre duas cidades para visitarem o Lions Clube de uma delas em um sábado (reunião com a diretoria à tarde, seguida de jantar festivo, à noite), e o da outra no domingo seguinte (reunião com a diretoria por volta das 10 horas e 30 minutos, seguida de almoço festivo, às 12 horas, como no caso presente).
b) Permitimo-nos, deliberadamente, embora sem o suporte das instruções contidas no Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (Edição de 1999 da Academia Brasileira de Letras) - não só com o intuito de dar-lhes maior realce, mas, também, para seguir costume adotado pelo Lions, grafar com iniciais maiúsculas vocábulos e expressões como Leão, Domadora, Presidente, Secretário, Clube, Distrito, Companheiro Leão, Governador de Distrito, Presidente de Clube, Mestre-de-cerimônias, etc.
Treze horas e quinze minutos de um belo domingo ensolarado! Como é de hábito, o almoço festivo marcado inicialmente para as doze horas, vai começar com "aquele" atraso. Afinal de contas, uma hora e quinze minutos até que não é muito atraso, não é mesmo? Ainda mais se levarmos em conta que o Governador do Distrito está visitando oficialmente o Lions Clube local naquele dia.
O Diretor Social dirige-se ao microfone (que, como de costume, não funciona a contento) e, no meio do ensurdecedor vozerio dos presentes, dá início às suas funções. Vai ser composta a mesa principal. Nesse exato momento, o Protocolo Leonístico começa a "sofrer", tendo, na maior parte das vezes, a Ordem de Precedência de Autoridades a lhe fazer companhia. Como padecem os coitados!... Mas a verdade é que a mesa principal, aos trancos e barrancos, foi composta e todos os demais presentes já tomaram os seus lugares (ou melhor, quase todos, porque não estava prevista a presença de tantos Companheiros de outros Clubes), primeiramente os companheiros do Clube anfitrião e depois os visitantes e convidados...
O Presidente do Clube, dando uma sonora martelada no sino, que há muito tempo não é polido, abre a sessão com as palavras de praxe, pede a um Companheiro que faça a "Invocação a Deus", a qual, ao seu término, recebe uma estrondosa salva de palmas.
É a vez da saudação ao Pavilhão Nacional distendido na parede e parcialmente encoberto pelas pessoas que ocupam a parte central da mesa. Todos cantam a primeira estrofe e o estribilho do Hino à Bandeira (para variar, uns, no estribilho, cantam "juvenil" e outros "varonil"... fica mais bonita essa dissonância...).
Após a calorosa salva de palmas ao augusto símbolo da nossa Pátria, todos os circunstantes se sentam, com aquela barulheira tão natural, e o Presidente nomeia o Mestre-de-cerimônias (que leva um susto com a nomeação inesperada), para dar prosseguimento ao programa estabelecido à última hora.
A primeira providência do Mestre-de-cerimônias, depois de recuperar-se do susto, é "carregar" o sino e o martelo, levando-os para a sua mesa, deixando o Presidente a ver navios. Em seguida, para ficar mais à vontade, retira o paletó e inicia as suas funções, agradecendo o Presidente a lembrança "antecipada" de seu nome para tão importante missão e informando que, para a "Jaula Aberta" (três minutos para cada Companheiro, no máximo), diz que os Companheiros devem inscrever-se com ele.
Nesse ínterim, a refeição começa a ser servida, e os garçons se esforçam para que os componentes da mesa principal sejam servidos por último, para demonstrar que em Leonismo não há essas coisas de protocolo, etiqueta, etc.
O Diretor Social, convocado pelo Mestre-de-cerimônias, faz sua saudação às autoridades, dirigentes leonísticos, convidados e visitantes sem se importar, no início da mesma, com a ordem de precedência na enunciação dos nomes dos componentes da mesa, pois isso seria desvirtuar a filosofia leonística que não admite hierarquia. Naturalmente, como os Companheiros e Domadoras têm muito a conversar, não prestam a mínima atenção às suas palavras. Mas, assim mesmo, ao término de sua saudação, as palmas se fazem ouvir.
Para animar a reunião e desinibir os tímidos, o Diretor Animador conta, em seguida, umas duas ou três "piadas", daquelas que fazem até tomate ficar mais vermelho. Afinal de contas, estamos entre Companheiros, Domadoras, autoridades, convidados e respectivas esposas, todos eles bastante esclarecidos e compreensivos.
Chegou a vez dos sorteios de brindes. O Diretor Social faz força para complicar o processo de sorteio, contando para isso com a "inestimável colaboração" do Diretor Animador.
Por essas alturas, uma hora de reunião já transcorreu e muita gente aguarda ainda que o garçom passe pela sua mesa, trazendo seus "apetitosos" petiscos.
Para variar, o Diretor Animador faz novamente funcionar seu "selecionado" repertório de piadas.
O Mestre-de-cerimônias anuncia um número artístico de excepcionais méritos e convida um Companheiro para executá-lo. Este, não se fazendo de rogado, dirige-se imediatamente ao velho e desafinado piano existente no canto do salão, e, com sua voz rouquenha e não menos desafinada, começa a cantar uma "linda" e "moderna" canção dos idos de mil e oitocentos e não sei quantos, sendo vivamente aplaudido ao final, o que o encoraja a repetir a dose, que é "pra leão"...
Mais alguns sorteios e mais alguns "números artísticos" para acompanhar a sobremesa, seguidos da verificação das delegações presentes à reunião (mais numerosa e mais distante). A delegação mais numerosa anuncia o Mestre-de-cerimônias, é a do Lions Clube de...................., com dezesseis pessoas e meia (e explica que a "meia" vai por conta da Domadora "fulana", que está esperando a cegonha). A delegação mais distante em linha reta é a de...............(protestos se fazem ouvir, mas o Mestre-de-cerimônias se mantém irredutível).
Terminada a sua função, o Mestre-de-cerimônias restitui os trabalhos ao Presidente, juntamente com o sino e o martelo que lhe foram usurpados no início da reunião e este anuncia "Jaula Aberta", alertando que cada Companheiro inscrito terá o direito de usar a palavra por três minutos (apesar de o Regulamento falar em dois minutos).
Apenas dois Companheiros se inscreveram na "Jaula Aberta", o que deixa antever o final próximo da "agradável" reunião festiva, após transcorridas três horas e meia de seu início. Mas os Companheiros inscritos são partidários dos "dois minutos dos grandes" e, esquecendo-se de que vários Leões e Domadoras têm que regressar ainda à suas distantes cidades ou bairros, resolvem, apesar, da barulheira reinante, depois de citar nominalmente todos os componentes da mesa, falar para aqueles que ainda permanecem no local, a fim de completar as "minguadas" quatro horas de reunião festiva.
Finalmente, vai falar o Governador do Distrito a quem o Presidente passa a palavra (palmas). O microfone agora "pifou" definitivamente e, desse modo, outra alternativa não resta ao dirigente máximo do Distrito, a não ser usar sua potente voz e a força total dos seus pulmões para romper a barreira do falatório dos poucos Companheiros e Domadoras ainda presentes. Mas, apesar dos pesares, ele consegue transmitir a sua mensagem e a assembléia não poupa os seus aplausos.
Por último, o Presidente, após a "rápida" e "proveitosa" reunião, que serviu para estreitar ainda mais os laços de companheirismo entre os Clubes do Distrito, agradece a presença de todos e pede uma salva de palmas ao Pavilhão Nacional.
Meu Caro Companheiro Presidente, se seu Clube realiza reuniões pelo menos parecidas com a que foi descrita, só lhe resta um caminho a seguir: desista enquanto é tempo e devolva com a maior urgência a Carta Constitutiva à Associação Internacional de Lions Clubes, pois que, plagiando a gíria de nossa atual juventude, seu Clube "já era".
* CL Nelcy Pereira Guimarães